História

  • A Santa Casa de Misericórdia de Resende

A Santa Casa de Resende foi inaugurada no começo do século XIX com o mesmo propósito das Irmandades ao redor do mundo: cuidar as pessoas doentes que não podiam pagar por um tratamento médico. Essa história começou em 1829 quando o vereador padre Francisco do Carmo Fróes propôs que fosse criada uma comissão formada por outros parlamentares e por representantes da sociedade civil para construção de um hospital de caridade em Resende. O projeto funcionaria através de doações da comunidade. Efetivamente, a comissão foi criada em 25 de janeiro de 1830, graças aos esforços dos também vereadores padre José Marques da Motta e padre Joaquim Pereira Escobar. Motta foi um dos principais fundadores e o primeiro provedor da Santa Casa. Ele era natural de São João del Rei, Minas Gerais, e também foi proprietário e redator do primeiro jornal resendense e do Vale do Paraíba, O Gênio Brasileiro. Os outros membros da comissão eram os vereadores Bento de Azevedo Maia, Domingos Gomes Jardim, Galdino de Amorim Boanova, José Rodrigues Neves e Antônio da Rocha Miranda. 

Por falta de recursos, a Santa Casa começou a funcionar em um casebre na Rua De Baixo, atual Simão da Cunha Gago. O entalhador da Igreja Matriz e enfermeiro Gregório Rodrigues de Siqueira foi o tesoureiro e um dos “procuradores de esmolas”, pessoas encarregadas de conseguir contribuições de terceiros. O primeiro diretor nomeado foi o capitão Antônio Pereira Leite, que chegou a integrar a Guarda de Honra do príncipe Dom Pedro.

Para a construção da segunda sede do hospital, na rua do Rosário – 189, a doação do terreno foi feita pelo Barão de Ayruoca, Custódio Ferreira Leite. Por sugestão do padre Escobar, a Comissão decidiu trazer de Areias, São Paulo, o padre Manoel dos Anjos Barros de Carvalho, que ficou encarregado de administrar a obra. Segundo o mestre em História Social e acadêmico da Academia Resendense de História, Júlio César Fidelis Soares, durante muitos anos, nas citações oficiais sobre a história da Santa Casa, o nome do sacerdote foi confundido com outro muito parecido, o do padre Manoel Serafim dos Anjos Barros. Júlio Fidelis explica que este outro já estaria em uma idade muito avançada na época da criação do hospital.

Finalmente, o atual prédio da Santa Casa de Misericórdia de Resende foi inaugurado no dia 25 de julho de 1835, na antiga rua do Lavapés (atual Praça Clemente Ferreira, 39), no bairro mais antigo da cidade e de mesmo nome. O casarão, projetado pelo engenheiro Luiz Hosxe, o mesmo que idealizou a Beneficência Portuguesa, na capital fluminense, era uma arquitetura moderna para a época e foi considerado o maior de Resende até 1944. 

As principais doações feitas à Santa Casa constam no livro da Provedoria. Nele estão registradas assinaturas de membros da Família Real, como a Princesa Isabel e o Conde d´Eu; importantes figuras do Império, como o Barão do Bananal, o Visconde do Salto e o Barão do Amparo; patentes da Guarda Nacional, médicos, empresários e padres, dentre outros. 

Os provedores que seguiram ao padre José Marques da Motta foram o médico Antônio de Paula Ramos, o fazendeiro Antônio da Rocha Miranda e Silva, o também médico Bernardo Augusto de Azambuja e o coronel da Guarda Nacional, Fabiano Pereira Barreto, o primeiro resendense dessa lista. No entanto, o recordista em permanência à frente da Santa Casa no começo do século passado foi o Conego Bulcão, que comandou o hospital de 1895 a 1908, exatos 13 anos. Nomes importantes da história resendense, como Luiz Pistarini passaram pela Santa Casa. O poeta, autor do hino de Resende, morreu na instituição, em 1918. 

Em 1927, a congregação conhecida como Servas de Maria chega à Santa Casa. Na época, o hospital vinha sofrendo com dificuldades financeiras e a Diocese de Barra do Piraí, responsável por Resende, solicitou a ajuda das religiosas que já haviam administrado outras Santas Casas. Elas ficaram à frente do hospital até 1992. O ex-diretor do Arquivo Municipal de Resende, o saudoso Claudionor Rosa, enfatizava que o principal legado da Santa Casa pode ser visto hoje, com a recuperação do prédio e a melhoria no atendimento. Assim, a instituição valoriza o passado e o recupera o propósito inicial de ajudar quem precisa. 

Fontes: 

Barcellos, Marcos Cotrim (2010). A Santa Casa da Misericórdia de Resende – Religiosidade e Política na Paraíba Nova (1801-1848). Revista Fronteiras, 12(21), p. 69-82. Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, MS.

http://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/597

Bento, Cláudio Moreira (1992). A Saga da Santa Casa de Misericórdia de Resende (1835-1992). Senai. 

http://www.ahimtb.org.br/Resende-RJ-A%20Saga%20da%20Santa%20Casa%20da%20Miseric%C3%B3rdia%20%20N.S%20da%20Piedade.pdf

Monteiro, Yara Nogueira (2010). História da Saúde – Olhares e Veredas. São Paulo: Instituto de Saúde. 

http://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-saude/homepage/outras-publicacoes/miolo-hist_saude.pdf

  • Centro de Estudos

O Centro de Estudos Médicos da Santa Casa de Resende foi fundado em 7 de maio de 1957 por iniciativa do dr. Dário Dias Alves. Este centro foi importante para o desenvolvimento científico de vários/as profissionais de saúde da cidade, como médicos, dentistas e farmacêuticos, além dos químicos das indústrias de Resende. Grandes nomes da medicina fizeram parte do centro, como os médicos Lélio Gomes, Ágila Sobral, Victor Rosa e Creso Fontes. 

Em 1968, um mini auditório, decorado com estantes de uma biblioteca médica, abrigava as palestras do Centro de Estudos Médicos da Santa Casa de Misericórdia de Resende. Nessa época, o presidente do centro era o dr. Nilton Guilherme. Ele e do dr. Lélio Gomes editaram o primeiro boletim do Centro de Estudos, com o patrocínio da Cyanamid Química do Brasil. Nesse informativo, foram divulgados trabalhos sobre a Síndrome da Costela Cervical, de autoria de Airton Ornellas, Lélio Gomes e Maurício Barbosa Menandro, que viria a ser diretor do Hospital de Emergência de Resende e foi um dos primeiros médicos, no Brasil, a tratar fraturas de colo do fêmur com pinos deslizantes. Outro tema do jornal foi Cardiopatia Congênita Cianótica, do dr. Nivaldo de Oliveira e Silva, que, por sua vez, viria a ser um dos presidentes mais conceituados do Centro de Estudos, assim como o dentista Aziz Abrão.

Em 1992, o Centro contava com 95 membros e ainda mantinha uma rica e bem preservada documentação, um trabalho minuciosamente realizado pela secretária Nadir Ferreira de Azevedo. O Centro de Estudos interrompeu as atividades em 2017. Mas, a já há um interesse da Santa Casa e de profissionais da região para que o trabalho seja retomado. 

Fontes:

Balieiro, Edson de Almeida (2009). Memória do Centro de Estudos da Santa Casa de Misericórdia de Resende. Centro de Estudos Médicos de Resende – 1956-2006. 50 anos de Cultura Médica. Resende: CEMR. 

Bento, Cláudio Moreira (1992). A Saga da Santa Casa de Misericórdia de Resende (1835-1992). Senai. 

http://www.ahimtb.org.br/Resende-RJ-A%20Saga%20da%20Santa%20Casa%20da%20Miseric%C3%B3rdia%20%20N.S%20da%20Piedade.pdf

http://resende.rj.gov.br/noticias/rechuan-lamenta-morte-de-ex-diretor-do-hospital-de-emerg-ncia

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-36162010000400022

  • Salão Nobre

Quando o atual prédio da Santa Casa foi inaugurado, em 25 de julho de 1866, a centenária imagem da padroeira Nossa Senhora da Piedade foi levada até lá, em procissão solene, desde a antiga sede, na rua do Rosário, 189 e colocada em um trono, no Salão Nobre, onde também aconteceu uma missa, assistida pela Mesa Administrativa da entidade, pela Irmandade, pelos funcionários e pelo povo de Resende. Na ata de inauguração, ainda é possível ler os nomes de muitas pessoas que estiveram presentes no evento. Quando a capela da Santa Casa foi inaugurada, em 1877, a imagem da padroeira foi transferida para lá, onde permanece até hoje. 

Neste mesmo dia da inauguração, os assessores do provedor (chamados, na época, mordomos facilitadores) Santos Fluminense e Manoel Conrado, discursaram. Foram eles os responsáveis por adquirir, por subscrição popular, ou seja, através de doações da população, os móveis da Sala de Sessões da Mesa Administrativa, o atual Salão de Honra. Desde então, o local tem sido considerado como um Relicário, um Baú de Recordações e um Sacrário da Gratidão da Irmandade em agradecimento a seus benfeitores. 

Era em este mesmo salão onde ficava uma das relíquias da Santa Casa, uma mesa feita à mão e doada por Manoel Rodrigues, que utilizou madeiras da Fazenda Ribeirão Raso (atual Itatiaia). A propriedade pertencia à Dona Mariana Pereira Leite. Ao redor dessa mesa foram tomadas as principais decisões referentes ao destino da Santa Casa, por mais de um século. No entanto, o móvel foi retirado do local e levado para a prefeitura de Resende, em 1968. No seu lugar, foi construído um mini auditório e instalada uma biblioteca médica. Outra doação considerada uma relíquia é o carrilhão artístico, um belo relógio feito por Matias Hummel, que hoje, encontra-se na Provedoria da instituição. 

Em 1901, quando Resende completou 100 anos, o Jornal do Brasil veio cobrir o evento e registrou, entre outras reportagens, a existência do Salão de Honra, onde estavam expostos os retratos a óleo dos grandes benfeitores da Santa Casa, uma forma de agradecimento a cada um deles. Ainda hoje, alguns desses quadros podem ser vistos na histórica sala, como os dos provedores: Custódio Ferreira Leite (Barão de Ayruoca), Padre José Marques da Motta, Custódio Luiz de Miranda, Antônio José Dias Carneiro (Visconde do Salto), José Pimentel Tavares, Manoel Fernandes da Silveira, Pedro de Paula Ramos, Emílio Maria Colonna, Cônego Miguel Calmon de Aragão Bulcão, José da Cunha Ferreira e Rodolfo da Rocha Miranda. Muitos desses quadros são de autoria do pintor resendense Antônio Nunes de Paula (1886-1925). 

Em 1918, a Mesa diretora precisou tomar decisões difíceis. Era a época em que Resende, assim como o todo o Brasil, sofria com a epidemia causada pela Febre Espanhola. O Salão Nobre, assim como a Capela, foi usado para atender as pessoas infectadas pela doença.

O Salão Nobre recebeu, em 1931, uma Comissão Militar, com treze oficiais, chefiada pelo Coronel José Pessoa. Na época, o provedor era Manoel Fernandes da Silveira. O objetivo da comitiva era colher dados comprobatórios em relação à salubridade de Resende para que Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) fosse instalada no município. Resende passou no teste e a AMAN foi inaugurada na cidade em 1944.

Além disso, o Salão Nobre voltou a viver momentos de angústia durante a Revolução Constitucionalista de 1932, uma luta armada, que pretendia derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e promulgar uma nova Constituição no Brasil. O local foi transformado em uma enfermaria improvisada. Nela, além de médicos e enfermeiros trabalharam voluntárias, como Danah Ache do Carmo, Ivone Brasil e Carmem Pena. 

Uma bonita celebração aconteceu em 1935, quando o provedor Oliveira Botelho e a Mesa Administrativa se reuniram para comemorar o centenário da criação da Santa Casa. No evento, antigos beneméritos, como o Padre José Marques da Motta, foram lembrados pelo orador e ex-provedor da Irmandade, Arcílio Guimarães. A comunidade também esteve presente. 

Em 29 de janeiro de 1936, foi roubado do Salão Nobre um quadro emoldurado de dourado, com um cartão de ouro, dedicatória e frases em celebração aos 100 anos da cidade, que havia sido enviado por resendenses que, nesse momento, viviam em Sertãozinho, interior de São Paulo. Era outra relíquia da Irmandade, como ficou registrado no Almanaque do Centenário de Resende para 1902.

No Salão Nobre, também é possível ver a placa em homenagem às Irmãs Servas de Maria, que administraram a Santa Casa de 1927 a 1992. Elas foram trazidas, na época, pelo provedor Arcílio Guimarães, também um dos patronos da Academia Resendense de História. 

Fonte: 

Bento, Cláudio Moreira (1992). A Saga da Santa Casa de Misericórdia de Resende (1835-1992). Senai. 

http://www.ahimtb.org.br/Resende-RJ-A%20Saga%20da%20Santa%20Casa%20da%20Miseric%C3%B3rdia%20%20N.S%20da%20Piedade.pdf